domingo, 25 de abril de 2021

por dizer

infância do inverno as maçãs amarelas

 ainda suspensas da nudez de uma árvore

 o resto do invisível veado na primeira neve 

e depois que não cessa de nada nos arrependemos 

como se pudéssemos ancorar no silêncio deste

singular momento de luz

 

narrativa

porque o que acontece jamais

 acontecerá e o que aconteceu

 de novo acontece incessantemente 

somos como fomos tudo mudou em nòs 

se falamos do mundo è apenas para deixarmos

o mundo ...
 

entre linhas

reclinados sobre pedras os caminhos da lonjura 

e na tua palma escrita a estrada o lar não è pois

 o lar mais a distância entre abençoado e quem

 quer que envergue a pele de um irmão da màgoa 

provará no sètimo ano presente por entre as coisas ...

 

em memória de mim mesmo

tão somente ter cessado 

como se eu pudesse começar

 onde cessou a minha voz

 eu mesmo o som de uma palavra 

que não consigo articular tanto silêncio

para trazer a vida nesta cerne apreensiva

o ribomber  do tambor das palavras na

interioridade tantas palavras perdidas

na amplitude do meu mundo interior

e assim ter sabido que apesar de mim

eu estou aqui como se fosse isto o mundo
 

rocha mãe

o amanhecer como uma 

imagem do amanhecer 

e o céu mesmo sobre si

 desabando irredutível

 imagem de água pura

os poros segregando luz

tal colheita que apenas

a luz será capaz as pedras

mesmas imorreduras na

imagem de si a consolação

de cor

olhar

seja là o que for 

que o meu olhar me 

traga como se finalmente

 me pudesse ver a capitular

 perante as invisíveis coisas 

que nos levam de par como nòs

mesmo e todas as crianças por

nascer rumo ao mundo
 

mulher

apenas  momentos antes da bela mulher 

que esteve diante de mim ter dito o quanto 

desejava uma criança e como o tempo nela 

começava a falar dissemos que ambos devíamos 

escrever um poema com as palavras uma pequena

 brisa a perturbar uma fogueira desde então nada

significou mais do que um pequeno acto presente

nestas palavras o acto de tentar dizer palavras que

significam quase nada atè ao derradeiro final quero

ser igual ou seja là o que for que o meu olhar me traga

como se me pudesse ver a capilar perante as invisíveis

 coisas que nos levam de par como nòs mesmos
 

quase nada

ali se acha uns poucos tufos de branco 

preguiçosamente atirados contra o puro

 negro do fundo nada mais do que um

 pequeno gesto tentando ser nada mais 

do que si próprio e não està no entanto

aqui e para os meus olhos jamais será uma

 questão de tentar simplificar o mundo mas

um modo de estar presente por entre as coisas

que não nos querem mas das quais necessitamos

na mesma medida em que de nòs mesmos necessitamos 
 

demanda de uma definição

sempre o mais pequeno acto possível 

neste tempo de actos maiores que a vida

 um gesto rumo ao que passa quase invisível

 uma pequena brisa a perturbar uma fogueira 

por exemplo que encontrei no outro dia por acidente

numa parede de museu
 

perda

de pura perda e daquela sorte de perdas

 que devastam o espírito ao ponto de se

 perder o espírito principia com este

 pensamento sem rima ou razão e depois tão

 somente aguardar como se a primeira palavra

somente após  a ultima surgisse após uma vida

à espera da palavra perdida nada mais dizer que

a verdade disto parecem os homens o mundo soçobra

as palavras não tem significado e portanto pedir apenas

palavras muro de pedra coração de pedra carne e sangue

tanto quanto isto mais ...
 

tu

tu na verdade saberás rir

 porque sendo o doce sopro 

 do vento serás sempre

 o meu divino alento correndo

 do indivisível devir 
 

Glaciar

como um glaciar por descobrir

 là no plácido  mar do teu tormento

navegam as mentiras do momento 

a coberto da bruma por abrir
 

não dizes

não dizes o que não ès o que já 

não ès mesmo que sejas sombra

 e silêncio pressentimento e

 transparência uma energia solitária 

a pulsar no voo de um pássaro de agonia

na ardente liberdade do destino mesmo que

tenhas sido uma torrente de água pura um

lago de salgadas lágrimas uma fulminante

luz esmeralda ou atè de um barco subtil

não dizes o que não ès o que já não ès 
 

sentimentos

sinto agora a dor apaziguada

 por sermos  um mar de serenidade 

peito onde pulsam vagas sem idade

 rumo a ilha por mim inventada

 através das caricias da paisagem

vai desenhando o vento ou a tua

imagem nas nuvens no sol na mais

 pura fonte nos rios nas folhas do

arvoredo nas gotas do orvalho

manhã cedo sobre o mar perdido

no horizonte
 

sonho

no sonho da noite transfigurada

 irrompes dessa irrealidade para

 inundares de luz a verdade cativa 

na palavra acinzentada
 

sábado, 24 de abril de 2021

torrente

mesmo que tenhas sido sido

 uma torrente de água pura

 um lago de salgadas lágrimas

uma fulminante luz esmeralda

ou atè´o abrigo de um barco subtil 

não não dizes o que não ès o que 

jà não ès
 

não dizes

não dizes o que já não  ès

 mesmo que sejas sombra 

e silêncio pressentimento

 e transparência uma energia

solitária a pulsar no voo de um

pássaro de agonia na ardente 

liberdade do destino

 

caricia

através  das caricias da paisagem

 vai desenhando o vento 

a tua imagem nas nuvens no sol 

na mais pura fonte nos rios nas

 folhas do arvoredo na gotas do

 orvalho manhã cedo sobre o mar

perdido no horizonte
 

sinto

sinto agora a dor apaziguada

 por sermos um mar de serenidade

oeito onde pulsam vagas sem idade

rumo ilha por mim inventada 
 

sonho

no sonho da noite transfigurada

irrmpes dessa irrealidade

para inundares  de luz a verdade

cativa na  palavra acinzentada
 

fizemos

fizemos do sonho rumo 

na lei que Deus mostrou

 por pedra na missão

 que fluída preserva de intenção

no regalo da lua que te dei ...
 

rosto

no  rosto eu sinto o suave vento 

das tuas asas de ave branca

 tu ès a pomba imaculada sem

 deixares de ser tão leoa tão 

felina como o odor com que me

 envolves tão maligna como o amor

que inventei
 

tu ès

tu ès a leoa que inventei sem deixar

 de ser a pomba que permaneças 

poema por seres luz sangue e dor 

um suave vento no meu rosto o

 selvagem cheiro do amor
 

hoje

hoje mais do que nunca

 fujo de mim em ti por

 não saber de ti fugir de mim

 agora agarrar a manhã no sol

 que desaponta o teu olhar e 

parto na vertigem do regresso

no trilho da flor cujo a frescura

o orvalho das minhas mãos vivifica

ou mortifica se não for meu coração

o jardim que procuras para morar

 

adejar

deixar adejar o lamento

 nas asas do vento sobre

 um rio sedento de verdade 

ao encontro do coração do

 tempo que pode ser uma

saudade tão tão sò verdade

ou aè da cor que se se veste

o poema
 

sexta-feira, 23 de abril de 2021

poema

hoje mais do que nunca 

fujo de mim em ti em ti 

para não saber de ti 

fugir em mim  agarro a manhã

no sol que desperta o teu olhar

e parto na vertigem do regresso

no trilho da flor cuja frescura o orvalho

das minhas mãos vivifica ou mortifica

se não for meu coração o jardim que procuras

para morar
 

vitòria

quem me livra de mim de quem sou 

por continuar a ser o que ainda não ès 

terás sido alguma vez comigo livre de ti

teràs apagado a  noite na comunhão dos

 corpos que voaram imateriais como o fogo
 que não agarramos mais queima não nunca 

poderemos gritar vitória se fecharmos os olhos

à luz multicolor que a tua água traçou no horizonte

na forma de um anel mágico cujo brilho exuberante

se sobrepõe à derrota cronológica biológica tão sem lógica

tempo

pelo tempo fora cavalgando espaços 

não fora o lugar de já ter sido sem se 

deter mais que na dor de ter sentido

 sem sentido algum o  fulgor distante

 da lua que se alcança e se oculta nos

 contornos de sombra dos gestos despertos

na consciência ausente atè ao dia em que a noite

se apague na rèstea de luar que sempre brilha para

 là da balbuciante substância para além da oscilante

devaneio como do barco que baloiça sem leme sem

 remos nem velas na superfície verde e transparente 

dum lago de montanha
 

ave migratória

como posso eu afinal desejar a lua 

duma noite sem sentido  sob o sol 

sem luz do teu ser perdido que no

 peito devia crepitar na calma prateada

 do luar estando sem estar sò dividido 

já tão cheio de frio que despido projecta

no espaço o seu gritar acredito no eco 

suplicante porque sei ser teu uivo delirante 

irrompendo febril de sob a terra por não seres 

ave migratória que serás se rumares à Vitória da

 primeira luz  que de nòs emperra
 

que dizer

que dizer da palavra por dizer aquela

 que nòs guardamos latente no cofre 

do silêncio reticente de sentidos por

 ser nuvem do sol do contacto e suster

 no peito que pulsa impaciente a tal

 melodia que não desmente a luz

 multicolor de te viver e a palavra

 que tão bem sabemos feita por nòs clausura 

que tecemos para que viva feroz  e decidida

 indelével no sulco que nos dita ser o rumo do sonho 

ou da desdita a senda da vitória nesta vida

 

belas flores

sò tu trouxestes as mais belas 

flores que o deserto sepulta

 na fùria definhadas num caos 

agonizantes decepadas na fúria 

de presságios predadores

 

a melhor

tu ès o melhor de nòs e da vida

 presença cuja luz è repartida 

através do seu sempre vibrante

 porque não deve abolir o amor

a genes dos afectos na cor da aura

que se move fascinante
 

rumo

 o rumo traçado não ilude 

os instantes de liberdade vividos

 na senda do destino que o sonho 

acalenta e reforça sempre que o fogo

 da vontade purifica desejos de continua

 fusão


distância

a distância è a própria morte

 mas esse pássaro de energia

 fulminante incandescente o  

sol do sonho atè ao dia em que

 o dia possa ser
 

pássaro

um sò pássaro de energia subtil 

 afasta a ideia de que a morte 

simulada possa reverte memórias 

de lugares distantes inverter 

projecções de momentos líquidos

na comoção transparente do olhar
 

Flores

sò tu me trouxeste as mais

 belas flores que o deserto

 sepulta definhadas num caos

 agonizante decepadas na fúria

de presságios predadores
 

respirar

o discurso se repete abrupto duplo 

circular tentando inventar o espaço

 lúdico na certeza de quem veste 

 a própria nudez com roupagens

 de volúpia lascivamente sob o sol

de cinzas poderá ainda imaginar

um botão de rosa e aspirar anelante 

 o seu aroma como quem beija um seio

de ternura
 

sonho

com que crédula esperança

 se ergue cada sonho na 

surpresa da manhã levemente

 azul a curiosa expectativa da

 noite extinta no túnel estreito

da insónia cruza memórias de  

constelações vivas com abismos

obscuros de incompreensível espanto

 

céu e terra

entre o céu e a terra sempre estamos 

ainda que o céu nem sempre seja

 o que a terra è mesmo sem ser um 

astro fulgurante de energia que o sol

aquece e torna verde ou mesmo azul
 

entre o céu e a terra

com a mão férrea da vontade 

 construímos  castelos de ilusão 

que a realidade mistifica mas a

 matéria  nem sempre è fantasia

 e uma pedra e outra tomba do

 sonho e permanece fluída com

um regato cujo a musicalidade

comove por ser água cristalina

e pura onde o luar reflecte e o

veado mitiga a sede sob a árvore 

a quiescente e grata

 

luminosidade

nenhuma luminosidade jamais me cegou 

como o da curvatura do ventre que tornou 

a própria perda na mais preciosa energia 

do começo por ser sangue água e luz esplendor

e vida ou sò poema
 

sonoridade

nenhuma sonoridade jamais

 me confundiu como a do fogo

 do sussurro que perto ou distante

da matéria se reflecte  na lava doirada

que fervilha
 

um dia

um dia o sol deixará de lançar

 os seus dardos de fogo e tu irás

  palmilhar o leito de cinzas ao nível

 da gelada presunção de nem ter sido
 

o medo

o medo palpita nas palavras

como um lado escuro

 sò visível quando as águas

 da ria por contar deixam 

de pulsar a melodia solar 

que se reflecte no seu espelho

anelante
 

Saber

sabes  tão bem que tambèm não sabes

por saberes que nada dizes sobre o que

ambos sabemos embora possas dizer do

que nada que disseste a insustentável

transgressão que desagrega qualquer elo

de fragilidade impossível por ser corrente

deindisivel devir
 

as palavras

a escrita brota do coração como uma 

zona interdita onde a alma pontifica

 reflexos distantes mas sempre acesos

 como se a linguagem fosse  um céu 

de estrelas que ora determina o rumo

o norte o caminho do poema que já fomos

nas marcas do tempo que traçaste ora aponta

o rumo do sonho que almejamos por sermos

 estrelas do universo que seremos

 

Sinto

sinto a caricia da tua mão invisível 

o aconchego dos teus membros

 de espuma e soçobro na água do

 teu ventre como se o abraço liquido

dos amantes não fosse o que somos

por sermos um 
 

Somos

somos agora um mar

 de tranquilidade sob

 o lençol prateado de 

vagas onde assoma a 

ilha do teu corpo como

um pedaço de areia brilhante

espessa e curvilínea onde dois

pontificam dois seios nacarados

que se oferecem como pérolas

 de colheita

 

Sonho

o sonho  transforma a noite 

da distância anunciada num

 farol de proximidade cujo

alcance dissipa cintilações

vacilantes
 

Que dizer

que dizer do assombro

 que trago incandescente 

na semântica como se o 

sol de cada instante

 projectasse no mapa

da tua pele um mar de geladas

labaredas como se o sal de cada

lágrima mais não fosse que um

sémen de penumbra que dizer

do assombroso fogo que trago

incandescente no teu corpo
 

busco o halo azul

da nossa alma na prevalência eterna dos teus lábios  e nos próximos deslumbramentos resplandecem mirados de pétalas na profusão mágica do re...